O PANDA

CRIATIVO

WE DELIVER 

WE SOCIALIZE

WE ANSWER

Entre em contato

com o Panda

  • Facebook
  • Instagram

As duas caras da tecnologia

Thiago Rondon trabalha para trazer à tona o melhor lado da tecnologia e conta como podemos nos proteger da manipulação cibernética.


Por Carla Furtado

Você já sentiu medo de tecnologia? Parte fundamental da rotina dos cidadãos urbanos, essa ferramenta tem se mostrado uma moeda de duas faces. Ao passo que não vivemos mais sem internet, também não é possível usá-la sem compartilhar informações pessoais, aparentemente sem importância.


Recentemente, o escândalo da Cambrige Analytica e o do Facebook ilustrou muito bem como os cadastros que fazemos rede afora não são nada inocentes.

Na busca pelo lado mais utópico da tecnologia, o democrático, tomar conhecimento dos processos que entramos ao fazer uso dela é de suma importância. Essa é a missão do empreendedor Thiago Rondon, que trabalha para reconstruir negócios e a sociedade com o uso de tecnologia. Ele é responsável pela startup AppCívico, que atua com tecnologias cívicas para empoderar cidadãos ou tornar governos mais eficientes, e é um dos diretores do Instituto Tecnologia & Equidade, que tem como objetivo alcançar a equidade com o uso ético da tecnologia.


Abaixo, o entusiasta de software livre e da democracia participativa, conta como seus projetos tem agido para trazer o melhor lado da tecnologia à tona e como ela tem interferido nas eleições de 2018 e na desigualdade social.
Thiago, os cidadãos estão muito longe de entender o quanto a internet tem impacto em suas decisões?

Há dois lados sobre como todos nós agora utilizamos a internet. O primeiro é que ficou evidente que é uma rede aberta e que todos podem falar, uma potência importante de mantermos e que era uma necessidade real. Rapidamente as redes sociais fizeram parte da nossa vida e de como nos relacionamos, sendo que no início da internet isso era encarado como uma utopia no desenvolvimento de conhecimento, consenso e acesso à informação de maneira livre a aberta. Porém, nos últimos anos, estamos vendo o outro lado que é a distopia criada sobre a quantidade de informações disponível na rede: com tanta informação disponível, estamos criando ou possibilitando mecanismos de manipulação em massa com o uso de tecnologia e dados pessoais.


As "fake news" estão mais controladas em relação ao ano da eleição do presidente norte-americano Donald Trump? Vamos sofrer da mesma forma nas eleições brasileiras?

A desinformação não é algo novo, principalmente no campo político. Iremos sofrer com “fake news” como em todas nossas eleições anteriores. O que tem ocorrido é que estamos migrando para novas maneiras de realizar essa desinformação em redes sociais, até pouco tempo acreditávamos que o acesso à informação de maneira massificada teria um potencial de gerar participação na política e construir consenso de maneira mais democrática. Porém, o que ocorre é que os políticos ainda não atuam de maneira digital, eles não oferecem uma maneira de participação em suas campanhas digitais, e nem mesmo de construção. Enquanto os políticos e o sistema político não for digitalizado, este será um problema complexo para se resolver.


Ao seu ver, a tecnologia tem mais aumentado ou diminuído a equidade social?

A internet já ofereceu uma nova maneira de oferecer informação de maneira mais rápida e ágil para uma maior parcela da população, assim como também telefones celulares já foram responsáveis por realizar uma inclusão financeira de maneira mais efetiva.


"Mas todas essas mudanças ocorrem apenas se nossas políticas públicas forem também digitais, isto significa que não podemos olhar para a tecnologia apenas como soluções, porém como meios. Para que possamos promover uma maior equidade com uso de tecnologia é essencial desenvolvermos estratégias com todos os atores da nossa sociedade."


Junto com o Instituto Tecnologia e Equidade você tem o projeto “Desinformação em Eleições: desequilíbrios acelerados pela tecnologia”. Ele já foi lançado? De forma prática, como funciona?

Foi realizado o lançamento recentemente, e o material é todo gratuito e está disponível neste link. Na pesquisa “Desinformação em Eleições: desequilíbrios acelerados pela tecnologia”, buscamos explorar dimensões a respeito das fake news e dos bots — suas origens, tipos, características, comportamentos, entornos, antídotos, legislação e iniciativas inspiradoras ao redor do mundo.


O White Paper "Recomendações Sistêmicas para Combater a Desinformação nas Eleições do Brasil” é um dos principais desdobramentos da pesquisa. A partir do Mapa Sistêmico, ele mostra um modelo do Sistema Propaganda Eleitoral na Internet nas Eleições de 2018 no Brasil e propostas de mudanças que denominamos “Pontos de Alavancagem Sistêmica”. O objetivo deste projeto é gerar eleições mais justas e equitativas. Que elas possam ter, como propósito central, o ato de oferecer informações aos cidadãos a partir de dados e conteúdos legítimos, reduzindo, ao máximo, a desinformação, o uso malicioso da tecnologia e, principalmente, a manipulação do eleitor.

*White Paper é um documento oficial publicado por um governo ou uma organização internacional, a fim de servir de informe ou guia sobre algum problema e como enfrentá-lo. (Wikipédia)

De que forma o Instituto Tecnologia & Equidade tem obtido sucesso em sua missão?

Nossos projetos estão sendo desenvolvido com uma metodologia com base em sistemas complexos para auxiliar atores e todo o ecossistema a promoverem a equidade, ou seja, para que em nossos diversos desafios possamos oferecer oportunidades para todos com o uso de tecnologia. A tecnologia tem aberto “janelas de oportunidades” para não apenas atualizarmos o modo com o que fazemos nossas ações e nos relacionamos, mas principalmente nos organizarmos como sociedade de maneira mais justa.


Para leigo entender, de que forma o blockchain vai ajudar essas eleições no Brasil a serem mais justas?

Por conta das possibilidades da tecnologia, nossas eleições já são mais transparentes. O TSE por exemplo, já disponibiliza informações financeiras detalhadas de todos as campanhas eleitorais, assim como desenvolvemos mecanismos de controle social com base em leis para fomentar a transparência ativa, ou seja, aquela que deve ser oferecida independente de solicitação. Porém, ficou evidente nos últimos anos que além da transparência de dados, é necessário confiabilidade também que podemos atribuir a processos de autenticidade. Aqui que entra a tecnologia de blockchain. A plataforma VotoLegal está registrando imediatamente todas as doações realizadas em uma rede pública de blockchain, em que ninguém pode adulterar essas informações posteriormente por qualquer motivo. O blockchain pode ajudar a descentralizar a confiança que temos hoje em processos de prestação de contas e transparência, e buscar o que em inglês é conhecido como “accountability”. Escrevi um artigo sobre isso com mais detalhes.

Em nosso cotidiano, como podemos nos proteger de tecnologias que prejudicam nosso poder de decisão?

"Acredito que um dos pontos mais importantes é desenvolvermos uma alfabetização midiática para que possamos fortalecer conhecimento e habilidades necessárias para absorvermos informação. Devemos utilizar o poder de falar que temos hoje para que possamos criar consenso e, principalmente, desenvolver maneiras de participação nas tomadas de decisão na sociedade. A tecnologia já provou que podemos debater, mas ainda não desenvolvemos mecanismos o suficientes para democratizar decisões políticas."