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Compaixão no jornalismo: quando a relação fonte-repórter vai além


Chico Felitti contou os bastidores de sua reportagem sobre Ricardo Correa, o Fofão da Augusta, em encontro com público.


Por Carla Furtado

Em outubro de 2017 o jornalista Chico Felitti publicou um perfil do morador de rua Ricardo Correa, mais conhecido pelos paulistanos como Fofão da Augusta. Muitos já tinham visto Ricardo, que inclusive tinha comunidade no Orkut e página no Facebook, ambas feitos por estranhos, mas quase ninguém conhecia sua história.

Numa aprofundada reportagem investigativa, Chico conseguiu um milagre dos atuais tempos ansiosos: prender a atenção de milhares de pessoas num texto realmente longo sobre uma figura anônima. A matéria foi a mais lida de 2017 no site Buzzfeed e um dos motivos por ter cativado tantos leitores foi o envolvimento que o escritor teve com a história, o que fica evidente a cada parágrafo do artigo.


Em janeiro deste ano, o PlusPlus!, comunidade que se reúne uma manhã por mês para discutir o tema da vez com uma personalidade ligada ao assunto, convidou Chico Felitti para conversar sobre compaixão a partir deste episódio que emocionou tanta gente. "Acho essencial que a gente se reúna para falar de compaixão e de empatia, porque é um fogo que se alastra, é uma centelha que as pessoas têm e que precisa ser exercitada", acredita o repórter.




No encontro, a conversa caminhou bastante pela questão de pessoas em situação de rua, pauta frequente na cidade de São Paulo, além do papel do jornalismo ao retratar pessoas que a sociedade considera excêntricas. Assista à íntegra da palestra e do bate-papo aqui.


"O jornalismo já foi muito de ridicularizar, mas o novo jornalismo é curioso, procura humanizar as pessoas e entendê-las, sem desqualificar. Os jornais que antes queriam dar minha matéria com viés sensacionalista deram perfis humanos do Ricardo após sua morte e o chamaram pelo nome. Isso é otimista", contou o repórter, que ofereceu a reportagem para diversos veículos e escolheu o que daria o olhar mais humano, permitindo o tamanho da publicação, maior que o comum.

Pouco depois da publicação do perfil de Ricardo, sua rotina mudou um tanto. As pessoas passaram a reconhecê-lo na rua, o que até acontecia antes, mas dessa vez com a diferença de que o cumprimentavam e até mesmo o parabenizavam pela sua história. Nos hospitais, ele passou a ter nome e sobrenome e deixou de estar na sessão de anônimos, como quando Chico e sua mãe, Isabel Dias, o conheceram inicialmente. Em dezembro, Ricardo faleceu. "Soube da morte dele pela generosidade das pessoas que me avisavam onde ele estava sempre. Uma dessas pessoas foi a médica que estava no hospital em que ele morreu", contou Chico.

"A gente tem a cultura de olhar superficialmente para as pessoas, ter a percepção se gosta ou não do que viu e termina nisso. Se uma pessoa está com a aparência ruim dificilmente vão querer saber mais sobre ela. É estranho alguém dizer que em algum momento da vida precisou da compaixão de alguém, mas eu tive a sorte de uma pessoa me olhar e se interessar em saber como eu queria ser ajudado. A Regina Romano me ofereceu um curso de teatro e eu adoro teatro, mas o que eu queria era estudar Letras para ser professor de literatura. Ela decidiu pagar a faculdade da minha escolha e era tudo o que eu queria naquele momento." Alessandro Jamas foi amigo de Ricardo e é professor de gramática na Fundação Casa.


"Tem a questão da humildade em aceitar que o que a gente deseja para a pessoa pode não ser o que ela quer. O Ricardo queria morar onde morava, não queria tomar remédio, nem pegar o dinheiro da família dele. Era uma escolha dele e eu tive que respeitar", pontuou o repórter.


>> O PlusPlus! acontece ao final de cada mês, no Mirante 9 de julho. Os encontros são gratuitos e anunciados através da página no Facebook e do Instagram do projeto.