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Desaposentados: a nova cara da terceira idade

O Brasil está se tornando um país idoso, e se você está pensando numa nação em casas de repouso, é melhor rever seus conceitos


Por Carla Furtado

Os tempos atuais são de desconstrução. Viemos desfazendo o que entendemos por gênero, casamento, família, carreira profissional e agora, enfim, é hora de repensar a velhice. É fácil para um jovem de hoje ter a certeza de que a sua maturidade será bem diferente da de seus avós, mas a surpresa para muita gente é que a inovação já bateu na porta dos atuais sêniors. Com isso, organizações que já perceberam esse novo comportamento vêm abrindo os caminhos para uma sociedade mais intergeracional.


Em menos de uma década, aumentou em 8,5 milhões o número de idosos brasileiros, e esse número só vem crescendo e se transformando. A nova terceira idade não se identifica com o rótulo de vovózinha e vovôzinho que se restringe a um aposento de descanso, o que muitos têm chamado de “revolução da longevidade”. Em grande parte dos casos, o trabalho está diretamente ligado à sensação de vitalidade e sociabilidade.

O conceito de aposentadoria surgiu com a Revolução Industrial, e determina que um sujeito não tem mais serventia social a partir do momento que não produz mais sua função profissional. “Essa é uma visão muito limitada da complexidade humana. As sociedades que não foram impactadas por isso valorizam a fase madura da vida como a da sabedoria”, diz Fernando A. C. Bignardi, 62, médico homeopata e idealizador do Centro de Ecologia Médica Florescer na Mata. “Exercer sua vocação é algo que faz muito bem. E muitas vezes é somente quando as pessoas param de exercer a atividade profissional que passaram a vida fazendo que encontram a sua verdadeira vocação.”


Tal abertura de horizonte aconteceu para Júlio Bonazzi aos 57 anos, quando estava desempregado e sem vontade de parar de trabalhar. Decidiu então fazer o curso Life Designing e frequentar as reuniões da MaturiJobs, uma plataforma de longevidade que reúne vagas de empregos, cursos e encontros para pessoas com mais de 50 anos. O que ele notou foi que estava muito fixado em seu currículo e esquecido de suas potencialidades em geral. Alguns meses depois, foi contratado em uma área que nunca havia trabalhado antes, a de certificação digital, com colegas e até um chefe mais novos que ele.

“Busco sempre entender o momento e realidade dos meus colegas, desta maneira consigo ter um diálogo fácil com as outras gerações. Mas o primeiro passo sempre tem que ser de quem já tem mais rodagem e as duas partes precisam querer essa interação”, conta Júlio.


“No Brasil existe uma cultura de valorizar muito o jovem e assim os mais velhos são deixados de lado dentro das empresas e menos ainda são contratados. Muitas empresas falam que a diversidade traz inovação mas esquecem da diversidade etária, e isso precisa entrar nessa agenda, até porque também é estratégico para elas” afirma Mórris Litvak, 35, fundador da MaturiJobs.

Nessa revolução, uma das palavras de ordem é a “intergeracionalidade”, o que é bastante coerente com a bandeira de diversidade que tem sido pauta frequente nos últimos anos. “Diferente do que muita gente pensa, o Lab60+ não é um projeto de idosos, ou de um jovem para idosos”, conta Sérgio Serapião, 44 anos, sobre a rede colaborativa que criou, focada nas questões de pessoas com mais de 60 anos, com encontros mensais em 8 cidades do país, os Cafés Comvida, em que projetos são expostos. Os melhores do ano vão para a Desconferência Lab60+, encontro anual para 800 pessoas viabilizado via financiamento coletivo. Há também o Festival Lab60+, que terá sua edição de 2018 em outubro, no Sesc Itaquera, com expectativa de receber 8500 pessoas de todas as idades para atividades físicas e culturais.


“O Lab60+ é um grande laboratório para todas as pessoas que já estão se dando conta de que essa extensão da vida demanda uma reflexão em relação aos paradigmas em que a gente ainda vive: ter uma profissão, depois se aposentar e aí entrar numa invisibilidade. A vida é feita de constantes transformações e isso é muito mais fácil se tivermos espaços acolhedores entre pessoas diversas, com todo mundo se respeitando e entendendo que existem uma série de demandas de que o outro que é diferente de mim pode complementar”, explica.

Tanto Mórris quanto Sérgio abriram os olhos para a questão a partir de episódios com parentes próximos. A avó de Mórris tinha uma vida ativa e saudável e trabalhou até os 82 anos quando caiu na calçada e precisou entrar em repouso, o que foi determinante para sua saúde declinar. A perspectiva de Sérgio foi outra: seu pai teve uma morte precoce, aos 47 anos, o que levou o filho a buscar uma ressignificação da vida e seus modelos organizacionais. Para ambos os empresários da longevidade, o segredo para se preparar para a terceira idade está em se observar e manter-se aberto às oportunidades e constantes mudanças.


“É o conceito do lifelong learning: estar sempre aprendendo, não necessariamente fazendo novas faculdades, mas por toda a vida estar aberto a diferentes possibilidades, ter uma rede ativa de pessoas e saber que se hoje eu faço uma coisa, pode ser que daqui a alguns anos eu faça algo que não tem nada a ver com isso, e tudo bem”, diz Mórris.


Denise Mazzaferro, mestre em Gerontologia Social e autora do livro “Longevidade — os desafios e as oportunidades de se reinventar” concorda: “Com a expectativa de vida do brasileiro aumentando, precisamos nos conscientizar que viveremos mais e as transições em nossas carreiras serão muito mais comuns do que imaginamos. Daqui a uns 20 anos, será comum encontrarmos pessoas com duas a três carreiras. Como vamos pensar que viveremos oitenta anos com a carreira que escolhemos aos dezoito?


“Você pode não fazer parte de alguns alvos de preconceito, tipo homofobia, racismo… Mas envelhecer, olha, espero que todo mundo envelheça! E ninguém vai querer ser taxado por isso. Eu tô aqui, com 64 anos, e tô pra jogo. E tem uma coisa estranhíssima comigo: eu me sinto mais como um garoto do que com uma senhora. Aí nessa eu já tô transgênero e… Transidade? Quero criar essa categoria!” —  Regina Casé na palestra "“Não tenho mais idade!”, que deu no Festival Path.


O Festival Path, grande evento de inovação e criatividade em São Paulo, também promoveu a diversidade etária e de gênero ao incluir monitores escolhidos pelas plataformas TransEmpregos e MaturiJobs na equipe. Seus currículos e perfis estão disponíveis ao público através deste e destelink.

Muitas vezes é preciso que as empresas façam esse tipo de esforço específico para efetivarem a inclusão etária. É o caso do programa Experiência na Bagagem, lançado em 2017 pela GOL, que abre vagas gerais para pessoas na terceira idade. “Quando falamos de profissionais com mais vivência, temos a expectativa de encontrar pessoas que agreguem tanto na sua ampla experiência de trabalho como na vida de um modo geral. Isso acontece porque, com o passar dos anos, nos tornamos mais centrados e focados no que de fato é significativo”, conta Jean Nogueira, diretor executivo de Gente e Cultura da GOL. De julho do ano passado até o atual momento, a companhia aérea realizou cerca de 90 processos seletivos contendo a presença de aproximadamente 328 candidatos no perfil do programa. Destes, foram contratados 63 candidatos.


Uma coisa é fato: não há como manter-se ativo por bastante tempo sem que haja o hábito de administração do estresse, sintoma que muitas vezes está ligado à produtividade rotineira. Dr. Fernando A. C. Bignardi, mencionado no início desta matéria, é responsável por um espaço que promove a reaproximação do cidadão urbano com a natureza, o que suas pesquisas indicam ser curativo em níveis profundos. Nessa lógica, surgiu o grupo Maturidade na Mata, em que pessoas na terceira idade se reúnem mensalmente para meditarem na natureza e trocarem experiências.

O projeto surgiu depois de uma pesquisa para o Centro de Estudos do Envelhecimento da UNIFESP, em que 140 idosos da periferia de São Paulo aprenderam a meditar, encontrando-se duas vezes por semana. As melhorias no quadro de saúde física e mental foram surpreendentes, mas o melhor resultado não foi clínico: eles voltaram a despertar para a vida.


“Passei 40 anos com a mesma profissão, 30 anos em uma mesma empresa e tive uma vida toda voltada para o trabalho e a criação do meu filho. Assim eu esqueci de olhar para mim e para o meu propósito de vida. Quando fui me aposentar e vi que não ia ser mais a diretora da empresa, não sabia mais o que seria. Isso foi me deixando doente e vi que precisava de uma reconexão com algo maior”, conta Aurora Yasuda, 67 anos, que retomou a vitalidade através da meditação e o contato com a natureza nos encontros do Maturidade na Mata.


Neste vídeo, Aurora conta como foi seu momento de reviravolta, fazendo jus ao termo “melhor idade”.

Aurora Yasuda em encontro do Maturidade na Mata (Reprodução)