Desconstruindo a privacidade

Existe privacidade em um mundo cada vez mais público?


O que significa ter privacidade em 2017? O compartilhamento é contínuo nas redes sociais, e muitas vezes a sensação é de que sabemos tudo da vida de todos, o que cria uma ilusão de que se alguém não está postando, não está em atividade. Quem é assíduo nas redes sofre quando não consegue compartilhar algum momento de sua própria vida — o que provavelmente acontece por falta de bateria no celular, e não por falta de vontade.


Tirinha de André Dahmer


Esse “oversharing”, ou exagero de compartilhamento, criou uma diversidade na definição do que é ou não privado. O que é natural para alguém compartilhar, pode ser extremamente invasivo para outra pessoa. E isso vai além das “stories” diárias e dos posts de notícias, a rede sugere a todo momento compartilhar sua localização, preferência por compras, livros, músicas e muitos outros dados. Perder o controle do quanto cedemos às empresas já é algo comum. Afinal, você sabe exatamente quais das suas informações privadas estão nas mãos das redes sociais, dos comerciantes virtuais e das empresas de tecnologia?


Cinco personalidades de diferentes áreas — um expert em tecnologia, uma instrutora de yoga, uma youtuber, a mãe de uma celebridade mirim e um artista — respondem o que significa ter privacidade hoje e como cuidam da sua:


"Privacidade pra mim é diretamente ligada a invasão. Acho que quem reclama que não tem privacidade é o maior responsável por passar por isso: se você está sendo invadido nesse sentido é porque permitiu. Sou artista e demorei muito pra entender isso, por exemplo. As pessoas desenvolvem uma certa magia de endeusamento sobre as pessoas que trabalham com arte ou que estão em cima de um palco e, sim, elas dão um jeitinho e acabam se aproximando de maneira invasiva. Essa situação é muito delicada porque dependendo da forma como um limite de aproximação é estabelecido, pode soar arrogância ou prepotência. É sempre preciso ser grato pelo apreço e muito sorriso para dizer um “meu telefone tá quebrado…”. Eu cuido da minha privacidade sendo livre. Faço tudo o que quero fazer pelas ruas, metrô, ônibus, ciclovias e quando as pessoas me cumprimentam na rua pelo meu trabalho, recebo e agradeço com todo o carinho. Acho que as pessoas que são encanadas com privacidade e se privam de fazer as coisas, são as que mais sofrem com invasão. Privacidade, pra mim, é liberdade."  —  Diego Moraes é cantor e compositor em projeto solo e no trio Não Recomendados, e assíduo nas redes sociais. Seu instagram é@diegomoraes3


O cantor e compositor Diego Moraes (Reprodução)


“Acho que conceito de privacidade está sofrendo uma revolução, devido às redes sociais e à forma que a informação flui. Hoje o interesse das pessoas não está pelo que é vendido ali, mas pelo propósito daquilo. Você usa aquilo que está vendendo? Você faz aquilo que está falando? Há uma necessidade que a gente saia um pouco do anonimato nesse sentido. Há uma perda da privacidade, mas eu acredito que isso seja uma coisa natural por causa dessa nova forma de se comunicar, de consumir. Ao meu ver isso é positivo porque as empresas e as pessoas estão mais reunidas ao redor de um propósito maior. Pra mim, a privacidade é importante sim, mas tem que ser revista. Não dá pra viver no anonimato, mas por outro lado não há uma necessidade tão grande de exposição. Então o que seria o caminho do meio? A linha tênue que separa uma coisa da outra é o bom senso e o propósito. Pra quê eu vou expôr algo da minha vida pessoal na rede social? Qual é o propósito por trás de uma foto passeando com o meu filho? Pode ser inspirar alguém a estar mais próximo do seu filho, por exemplo. Sempre pensando no propósito maior, e que ele seja benéfico pra todo mundo." — Fernanda Cunha é instrutora de yoga, inclusive através de suas redes sociais, mantendo umcanal de aulas no Youtube. Seu instagram é @fernandacunhayoga


A youtuber e vloguer Mari Morena (Reprodução)


"A gente não tem muita privacidade. A gravidez da Elis, foi muito exposta, de uma forma positiva e natural. Até o nascimento foi praticamente ao vivo pelo Facebook, talvez por eu ser muito comunicativa, ou porque desde o ventre a Elis já se conectava com o público. Quando ela fez 1 ano e o cabelo dela começou a crescer, eu comecei a fazer acessórios para cabelo crespo porque não encontrava no mercado, o que foi um sucesso. Com 1 ano e meio ela tirava fotos com os acessórios e já dançava. Hoje nós não postamos sobre o cotidiano da Elis, como idas à escola, ou ao médico. A gente fala mais sobre o que pode ajudar outras pessoas, como as coisas que ela supera, que aprende, situações que outras famílias também estão passando. As pessoas nos reconhecem na rua, querem saber como foi o nosso dia, algumas vezes falam que não gostaram muito de uma foto porque a Elis não sorriu, ou que gostaram muito de uma roupa mas que eu deveria mudar a cor… Essas coisas acontecem muito, mas entendemos que as pessoas são assim e vamos levando. A Elis sabe que as pessoas a conhecem, que ela é relativamente famosa no meio dela, mas não carrega o peso de ser uma mini blogueira. Até porque eu que escrevo os posts e o pai que a acompanha e escolhe as roupas, então é tranquilo pra ela. Ás vezes ela fica de saco cheio quando está brincando e tem que parar pra tirar foto, só nessas situações que se sente um pouco 'invadida'."  —  Renata Morais é mãe da Elis Mc, dançarina de 6 anos e “mini blogueira” que mantém redes sociais e participa de programas de TV e eventos de dança pelo Brasil. O instagram da Elis é @elis_shiis


A empresária Renata Morais com sua filha, a dançarina e "mini blogueira" Elis Mc (Acervo Pessoal)


"Privacidade, para mim, tem muito mais relação com “troca” do que com “proteção”. Explico. Acho que muitas informações que fornecedores de serviços recolhem sobre mim, retornam como serviços melhores, por exemplo: O Spotify que me faz muitas recomendações de músicas que gosto e eu nunca descobriria procurando individualmente por elas, mas com seus algoritmos inteligentes eles localizam baseado no meu perfil; O Netflix da mesma forma, com seus sistemas de recomendações inteligentes; E a Amazon, o mais antigo deles, localiza alguns livros muito legais para mim. Não tenho muitos cuidados com privacidade não, enquanto a “troca” me favorece permaneço usando os serviços e deixando meus registros para os provedores, quando não tiver mais valor pra mim, abandono os serviços e restrinjo o acesso aos meus dados."  —  Ricardo Cappra é cientista de dados, especialista debusiness analytis, cientista-chefe na Cappra Data Science e do laboratório de big data Mission Control, além de curador de tecnologia no Festival Path 2018. Seu instagram é @cappra



O cientista de dados Ricardo Cappra (Divulgação)



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