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Em harmonia com o ambiente

Conheça o protótipo de uma casa circular no Brasil, feita para ser desmontada e remontada infinitamente, sem quebra-quebra e produção de lixo.


Por Carla Furtado

Era uma casa muito engraçada: não tinha cimento, e de lixo não tinha nada. Imagine uma construção sem a necessidade de caçamba e que pode ser desmontada e remontada facilmente em outro lugar? Parece mesmo coisa de ficção infantil, mas é verdade: o modelo circular eleva a sustentabilidade a um novo nível, e elimina diversas dores de cabeça, pessoais e ambientais, que costumam vir durante uma construção comum.


O Panda foi conhecer um ateliê construído nesses moldes, em Pinheiros, bairro de São Paulo, que é protótipo para uma série de novas casas circulares.


A artista plástica Ariela Handfa em frente ao seu ateliê circular com as arquitetas Katia Sartorelli e Léa Gejer (foto: Matheus Matta)

São muitas as diferenças entre esse tipo de construção e o tradicional, mas o que separa esses modelos definitivamente é o questionamento: “e depois?” Baseada no conceito “cradle to cradle”, ou do berço ao berço, a economia circular garante que os recursos utilizados continuarão sendo úteis infinitamente, de maneira segura e saudável, tanto para a natureza quanto para os seres humanos. Assim, a madeira, o gesso, o vidro, permanecem iguais caso a casa seja desmontada e com vida perfeitamente útil.


Isso é possível graças ao planejamento, que é pensado para que não sejam necessários procedimentos com cola, argamassa ou quebra-quebra, o que ainda evita o stress e a produção de lixo. “Gastamos muito mais tempo com o planejamento do que com a montagem”, contam as arquitetas e urbanistas Lea Gejer, da empresa de design circular Flock, e Katia Sartorelli, do escritório Okna Arquitetura, realizadoras do projeto.


As arquitetas afirmam que num planejamento tão detalhado, surpresas no orçamento e prazos hiperestendidos têm poucas chances de acontecerem. Neste caso, foram 3 meses de planejamento, 15 dias de pré-produção numa carpintaria, e duas semanas de montagem in-loco sem produção de lixo, ou seja, sem as temidas caçamba e sujeirada. O custo para a construção de um cômodo foi de R$50 mil, o que deve ser reduzido na produção em escala.


O protótipo da série de casas planejadas por Lea e Katia é um ateliê, feito para a artista plástica Ariela Handfas. Montado no quintal dos fundos da casa de seus pais, o espaço atende suas necessidades, que são principalmente trabalhar durante o dia com bastante luz e conforto. As portas abrem-se completamente, virando decks para o lado de fora. As janelas, em modelo guilhotina, também foram planejadas para a abertura total e posicionadas para que façam ventilação cruzada no ambiente.


A artista plástica em seu ateliê, que aproveita o máximo da luz natural e fica no quintal dos pais. A construção pode ser remontada em qualquer outro ambiente. (Foto: Matheus Matta)


As portas laterais abrem-se completamente, transformando-se em decks ou espreguiçadeiras. A madeira escura da parte externa da casa foi reaproveitada de uma obra comum, em que foi utilizada como molde de concreto e seria descartada para aterro. (Fotos: Matheus Matta)


“Na economia circular, uma casa pode ser um bem de uso, e não de consumo. Assim ela pode ficar temporariamente em diversos lugares, sem precisar ser descartada caso a pessoa mude ou queria lhe dar outra função. O que a gente propõe é que a casa possa se renovar com o tempo, e não ser uma construção perene, que é a visão da arquitetura tradicional”, explica Katia.


O sistema de iluminação é zenital, através de tubos de luz no teto, que além de proporcionar luz indireta, também funcionam como chaminés para o ar quente, que sobe pela disposição termodinâmica da construção, numa espécie de ar condicionado natural. Há lâmpadas elétricas para a noite, assim como tomadas em caso de necessidade.


Sistema de iluminação zenital, por "chads", que ficam logo acima do mesão de trabalho. Os tubos de luz também servem como chaminés, liberando o ar quente. O puxador, na imagem à direita, manipula a abertura. (Fotos: Matheus Matta)

A água que abastece o tanque no interior do ateliê é captada das chuvas, ainda que tenha um registro comum em casos de emergência. “E depois que a água é usada no tanque, ela é tratada através de um círculo de bananeira, que plantamos atrás do ateliê, bem próxima ao reservatório de captação pluvial. A própria bananeira filtra novamente a água, que volta para o sistema limpa, e assim fecha o ciclo dela também”, conta Léa.


A palavra forte no projeto circular é “reciclável”, mais que “reciclado”. Ainda assim, há espaço para a reutilização de materiais: a fundação da casa foi feita com pneus usados e brita (a própria terra retirada do solo para posicionar os pneus é misturada com pedrinhas e preenche os pneus, formando a fundação). Os fechamentos externos são de madeira reaproveitada de outra construção, em que foi usada como fôrma de concreto.


Detalhes: o reservatório de água pluvial que fica atrás do ateliê// janela aberta totalmente em modelo guilhotina; a madeira escura é reaproveitamento de outra obra // muito vidro nas paredes para aproveitamento total da luz natural e integração com o ambiente externo (Fotos: Matheus Matta)


“Tanto o mestre de obras quanto os borracheiros ficaram super felizes e aliviados de darem andamento para esses materiais, em vez de mandar para aterro ou simplesmente não saberem o que fazer com aquilo”, conta Katia. No Brasil, 50–70% do volume de resíduos sólidos urbanos tem deposição irregular e apenas 1% das 100 mil toneladas geradas diariamente pela construção civil é reciclada, a maior parte por cooperativas.


Para o reaproveitamento, além da preocupação do conceito circular, é preciso que os materiais sejam atóxicos: “Os edifícios convencionais são muito doentes, a qualidade do seu interior muitas vezes é pior que a exterior, de tanto poluente que tem no ar devido aos materiais construtivos. Tivemos muita preocupação com a saúde dos materiais que usamos. No caso dessa madeira reutilizada, nós a tratamos com uma queima específica para eliminar toxinas”, explica Léa.


“Já existe um movimento de moda sustentável, mas ainda não há uma grande preocupação com o uso dos recursos construtivos. Tivemos dificuldade para encontrar os materiais apropriados aqui no Brasil, mas estamos começando o movimento!”, completa Katia.