Histórias em quadrinhos dão novo fôlego para o mercado independente no Brasil

Pequenas produções com técnicas diferenciadas, narrativas inovadoras e artistas de qualidade tiram os impressos da mesmice e do esquecimento. Não por acaso, o tema é debate no Festival Path!

Dos invencíveis super-heróis importados da Marvel até as peraltices da Turma da Mônica, as histórias em quadrinhos tiveram momentos de glória, dos quais o público majoritariamente nerd nunca deixou morrer. Entre altos e baixos ao longo dos anos, o mercado voltou a aquecer em meados de 2008, dessa vez ampliando seu público, seus formatos, seus temas e suas formas de divulgação. O mercado independente de HQs ressalta o potencial criativo dos autores (e autoras!), expandindo os horizontes da produção nacional. O tema está na grade do Festival Path 2018, que vai debater sobre os rumos desse segmento em ebulição.


Não há explicação óbvia ou dados que explique o sucesso das HQs, mas sim alguns fatores que as tornam atraentes ou irresistíveis. Depois que os personagens heroicos foram parar nas telonas de cinema, garantindo bilheterias milionárias e uma popularidade estratosférica, houve também um aumento nas vendas de gibis, que seriam sua origem. Assim foi aberta novamente a porta de entrada para este universo, que eclodiu nos últimos anos com boom de publicações, feiras, editoras, escritores e ilustradores. O nicho ganha mais fôlego com o respaldo de eventos enormes, como a FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) e CCXP (Comic Con Experience), que teve recorde de público em 2017, reunindo mais de 227 mil pessoas em São Paulo.


Mas enquanto o mercado mainstream é pautado por mangás e quadrinhos de aventura ou ação, o independente preza por narrativas mais densas e intimistas, como é o caso das histórias autobiográficas. Tais elementos resultaram na ascensão de graphic novels (ou romances gráficos), como a premiada Daytripper, dos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá. A diversidade de assuntos embalados por trabalhos gráficos primorosos é infinita, passando por conflitos familiares (Umbigo Sem Fundo — de Dash Shaw), o holocausto (Maus — de Art Spiegelman), a cultura islâmica (Habibi — de Craig Thompson) e até jornalísticos, como fez Joe Sacco em “Palestina”, que relata sua jornada entre os conflitos da Faixa de Gaza. E nem todos estes exemplos são recentes, apenas ganharam uma popularidade muito maior a medida em que tais formatos avançaram no interesse das pessoas e das editoras.

Transitando entre ilustração, graffiti, serigrafia e quadrinhos, Benson Chin mergulhou completamente nas artes gráficas. A atração pelas HQs começou quando ele nem sabia ler ainda e provavelmente vai perdurar por toda a vida.


“O que mais curto é o fato de ser uma leitura ativa. Ao contrário do cinema, que é uma leitura passiva em que você recebe as imagens e o tempo mastigados, nos quadrinhos o próprio leitor é incubido de dar o ritmo da leitura. Isso somado à junção de texto e imagem que narrativamente conduz a uma solução gráfica única, explicou o artista, que é um dos fundadores do espaço de artes visuais Casa Locomotiva e da revista/coletivo O Miolo Frito, plataforma que serve para contar as próprias histórias do grupo de amigos que fazem parte da empreitada.


A produção underground é feita com uma variedade editorial que torna uma edição totalmente diferente da outra. “No tema das histórias saímos do lugar comum dos gêneros que são tradicionalmente vinculados a essa mídia, como policial, horror, suspense ou super-heróis. Acabamos indo por um lado mais da brisa mesmo, e damos muito espaço para o improviso, quando fazemos as histórias à várias mãos. Além disso, sempre mudamos o papel, tipo de impressão, formato, cor, etc. É um desafio que nos impomos.”


Para Daniela Utescher, uma das sócias da loja e editora Ugra Press, as razões para o crescimento é que as publicações feitas fora do circuito comercial vão além dos quadrinhos, trazendo ainda mais variedade. “Temos o catálogo de editoras maiores para atender o leitor e colecionador de quadrinhos. Mas nossos clientes gostam de entrar na loja e descobrir algum livro diferente, inusitado. Existe um universo paralelo à ser descoberto, de livros e zines sobre ilustração, fotografia, colagem, política, música…que recomendo muito.”

Com a demanda favorável, a Ugra abriu uma loja há três anos, assim como fizeram outras editoras, como a Lote 42, que exibe seus produtos na Banca Tatuí, em São Paulo. Ter espaços físicos dedicados somente ao nicho underground desperta os olhares e abraça mais ainda os clientes. Na hora de comprar, as pessoas recorrem às lojas físicas para folhear os livros, pedir recomendações e descobrir novidades das quais talvez não chegariam a ver no modo on line.


Embora também seja utilizado, por enquanto o meio digital é muito mais uma plataforma para conhecer novos autores do que para alavancar a leitura. “A internet auxilia a divulgação e circulação dos trabalhos com facilidade e custos baixos. É muito comum os quadrinistas produzirem webcomics e HQs curtas nas plataformas digitais. Isso estimula a produção quase que diária de alguns autores e testa a repercussão do quadrinho”, apontou Daniela, que também não dispensa o material físico. Acho que o livro é uma grande realização para o artista e a preferência de muitas pessoas que consomem quadrinhos nem se compara ao digital.

Benson acredita que as tirinhas e histórias mais curtas funcionam bem no virtual, mas que prefere trabalhar com impressos por conta do tempo de produção. É aquela coisa que já é meio clichê, mas saímos do computador e vamos de fato fazer um objeto. No fim acho que o leitor acaba percebendo esses detalhes mesmo que indiretamente. Ou diretamente, quando aparecem as falhas de impressão e registro”.


A experiência de tocar, cheirar e analisar todos os detalhes é mais completa, levando o leitor a uma conexão profunda com a produção que está em suas mãos. “O nosso cérebro certamente não possui a mesma velocidade de assimilação de um processador do computador. Para narrativas mais longas, o ritual de abrir um livro, virar as páginas e sair do unidimensional ajuda a absorção e entendimento da história”, conclui o autor da HQ Bar, lançada no ano passado pela editora Mino.


Representatividade em pauta

A jornalista Gabriela de Sousa Borges ressalta a participação crescente de mulheres nos quadrinhos com a página Mina de HQ, onde divulga o trabalho feminino — inclusive da artista mineira Anna Mancini, a Manzanna, que desenhou uma personagem para ela — com recomendações e novidades. Começou lendo tirinhas de jornal e Turma da Mônica, que assina até hoje, dispensando os super-heróis. Ao conhecer as graphic novels, encantou-se mais ainda com este universo, a começar pelas produções de autoras como Marjane Satrapi e Maitena.


Quando foi fazer mestrado na Argentina, conheceu a Revista Clítoris, uma publicação local independente de quadrinhos e feminismo, que teve quatro edições. Tornou-se colaboradora, iniciando sua trajetória definitiva de apoio às HQs femininas, além de focar o trabalho acadêmico nas questões de gênero e representatividade. De volta ao Brasil, passou a ser chamada para falar do assunto em eventos como o Ugra Zine Fest e o Encontro Lady’s Comics (ELC).


“Depois do ELC de 2015, que foi um encontro lindo e histórico, rolou um boom no movimento, as mulheres passaram a se unir muito, lutar contra a falta de visibilidade no mercado e em eventos. Eu decidi aproveitar o que vinha fazendo para bolar um projeto com o objetivo de dar visibilidade ao trabalho incrível das quadrinistas do Brasil e do mundo”.

Para ela, apesar da internet democratizar o acesso e divulgação dos trabalhos elaborados por mulheres, ainda falta um suporte real para que cresçam não só em relevância, mas economicamente.


A verdade é que a maioria das artistas que produzem HQs e das personagens femininas no mainstream ainda ocupam um espaço marginalizado em relação aos homens. Como são poucas as mulheres que estão publicando seus livros por editoras, são poucas recebendo dinheiro assim. Ainda falta um interesse real das editoras brasileiras em publicarem mais as obras de autoras, dos prêmios em reconhecerem esses trabalhos e dos eventos em chamar as artistas para mesas que não sejam só sobre a perspectiva feminina”.

Benson complementa dizendo o quanto a presença feminina ultrapassa a todo custo a barreira machista que permeia o segmento, que antes limitava bastante seus papéis. Ter mais mulheres no meio ajudou a aniquilar o clichê do uso da figura feminina de uma maneira idealizada e objetificada, que era um lugar comum nos quadrinhos, um meio predominantemente masculino até então”.


Além do gênero, a representatividade se expande para questões de raça e orientação sexual, que pouco a pouco começam a dar as caras nas narrativas, inclusive as mais famosas, para mostrar que diversidade vai muito além dos assuntos a serem retratados. “Acredito que tem um lado positivo da representatividade das minorias no mainstream, mas isso é o básico, é o que deveria ser desde sempre. Por um outro lado, ao deixar de lado questionamentos ligados aos temas complexos que levaram certos grupos a serem excluídos, essa simples apropriação visa apenas o lucro e não é verdadeiramente transformadora ou questionadora”, alerta.


O debate continua na mesa HQs Nacionais: ao infinito e além!, que acontece dia 19 de maio, às 18h15, no Festival Path 2018. Garanta seu ingresso!

Uma HQ para ler

Daniela: “vou indicar a coleção Ugritos, que publicamos a cada dois meses pela Ugra Press. É uma coleção de gibis de bolso, com histórias curtas (16 páginas) e autores muito variados, a maior parte deles com outras HQs publicadas de forma independente ou em editoras. São uma porta de entrada nesse mundão das HQs independentes.”

Gabriela Borges: “difícil escolher uma só, hein?! Vou indicar as coletâneas “Spam”, da Zarabatana Books (com Germana Viana, Samanta Flôor, Cynthia B., Cátia Ana e Camila Torrano), e o “Gibi de Menininha — Historietas de terror e putaria” (com Roberta Cirne, Carol Pimentel, Clarice França, Mari Santtos, Germana Viana, Camila Suzuki, Renata CBLZZ, Milena Azevedo, Renata Rinaldi, Ana Recalde, Dika Araújo e Camila Torrano), que vai entrar com uma campanha de financiamento coletivo em meados de julho.

Benson Chin: “Qualquer coisa publicada pela Escória Comix.”

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