Mi casa, su casa: entenda o coliving, uma nova forma de moradia compartilhada


Por Brunella Nunes


A ideia de juntar as escovas de dentes chega a dar calafrios em algumas pessoas, mas talvez esteja na hora de repensar as escolhas. Dividir o mesmo espaço não (apenas) com um parceiro ou parceira, mas com várias pessoas com interesses semelhantes está voltando à tona, mesmo que timidamente.


Não é um casamento e também não são as bagunçadas repúblicas universitárias. Então, o que é o coliving, afinal?


Dos anos 1970 até os dias atuais, podemos dizer que houve um pequeno hiato de 48 anos no chamado coliving. Pelo menos para grande parte da sociedade, que se isolou cada vez mais em pequenos mundos individuais e agora tenta remar na direção contrária. Com umas doses de maturidade, o conceito renova o ato de morar junto a partir de motivações econômicas, profissionais e pessoais, colocando sob o mesmo teto um grupo de seres humanos com propósitos parecidos e dispostos a simplesmente conviver em harmonia.

Viver em comunidade traz inúmeros desafios desde a idade da pedra. Enquanto as repúblicas estudantis surgiram no século 14, a cena mudou um bocado em meados de 1972, quando surgiu o primeiro cohousing na Dinamarca, com 35 famílias. Um pouco diferente, este termo se aplica às moradias avulsas e privadas que dividem um mesmo terreno urbano e, portanto, formam uma unidade apenas nas áreas comuns. Já o coliving resulta na divisão de uma mesma casa por um grupo de pessoas, aliando também a recente tendência de coworking. Ou seja, o “eu” dá lugar ao “nós” por completo.


cohousing (ou co-lares, em português): são casas construídas próximas uma das outras, como uma vila, com áreas comuns e de convívio (lavanderia, recreação, etc). As pessoas não necessariamente vivem na mesma casa, apesar de morarem próximas intencionalmente. Os moradores também fazem compras coletivas e se apoiam mutuamente.


coliving (ou casas compartilhadas): é bem similar ao cohousing, mas com a diferença de que as pessoas moram num mesmo espaço físico. Diferente de uma república, os inquilinos estão intencionalmente juntos, para desenvolverem ideias, projetos e experiências em conjunto. O compartilhamento da vida é bem maior.

Antes do movimento tomar força, é preciso recordar de certos episódios contemporâneos, como o fato de que a economia compartilhada tem uma participação bem considerável nesse crescimento. Cerca de 72% dos americanos já utilizou, pelo menos uma vez, de algum recurso do tipo através de plataformas como o Airbnb ou escritórios de co-working como o WeWork, segundo uma pesquisa do Pew Research Center Survey, divulgada em 2015.


Com o avanço do empreendedorismo, especialmente jovem, abriu-se um vasto campo entre os praticantes de home office, nômades globais e profissionais liberais. Assim, parece um tanto óbvio que se crie espaços convenientes onde tal nicho não apenas trabalhe, mas more junto a outros com os mesmos focos ou interesses. Além disso, é uma solução para a crises, seja de moradia, devido ao boom imobiliário e superlotação dos centros urbanos; econômica, pelas condições de um país ou do próprio bolso; e existencial. Indo além do lado financeiro, nota-se que tais grupos se reúnem de forma intencional. Motivados a sair de suas bolhas, por vezes digitais, os milennials encontram um refúgio, acreditando ter um lar e não apenas uma casa para viver.

Tirando o fato de que aluguéis nas grandes cidades são salgados para pessoas com seus 20 e poucos anos, a facilidade de pagamento, as mordomias inclusas e os vizinhos acolhedores tornam o coliving oferta dos sonhos. Belos edifícios em bairros bons ou ótimos, apartamentos com design arrojado, comodidades, preços competitivos, amigos dividindo o mesmo andar, praticidade para chegar ao “escritório” e a ideia de enfim ter encontrado tempo e felicidade num só lugar ajudam a propagar o final feliz de um investimento do tipo.


No Estados Unidos e em outras partes do mundo há até prédios inteiros dedicados à seguir tal lógica, e outras iniciativas pautadas em oferecer praticidade. Em constante crescimento, a Common é uma companhia que encontra “quartos privados com lindos espaços compartilhados em lares amigáveis”, segundo as próprias palavras. É um serviço que encontra colivingsnas cidades de Nova York, San Francisco, Chicago e Washington D.C, para estudantes e profissionais já estabelecidos, solteiros ou casados. Em SanFran, o aluguel mais em conta custa US$ 1.388,00, enquanto em NY estão a partir de US$ 1.340,00. Se a pessoa não está satisfeita com o local, pode facilmente ser transferida pela equipe para outro. Ou seja, mais comodidade e flexibilidade sendo aplicada do dia a dia. Já o site coliving.com já funciona como uma espécie de Airbnb das residências coletivas, no qual os usuários colocam seus anúncios e ofertas.


De olho nas tendências e com uma empresa bilionária em mãos, o idealizador da WeWork — que hoje tem mais de mil escritórios espalhados pelo mundo, incluindo o Brasil — Adam Newmann tratou de lançar o WeLive, no distrito financeiro de Nova York. São apartamentos individuais ou coletivos mobiliados, porém com áreas de convivência compartilhadas com os demais moradores: bar, salão para aulas de yoga/dança, lavanderia e uma grande cozinha para refeições em grupo. Tudo é planejado com meios avançados para que os criativos mantenham o foco, mas também não percam tempo procurando por lazer e/ou certo nível de qualidade de vida.


O preço? Entre US$ 3.050,00 e US$ 7.600,00 por mês, com tudo incluso, desde as toalhas que se usa até a lavagem das mesmas. No caso, a empresa funciona como intermediária e administradora do local, cuidando de todos os trâmites, burocracias e serviços, eliminando as dores de cabeça dos moradores, porque os problemas relacionados à casa são terceirizados.

Outra iniciativa bem promissora pintando no mercado é o Zoku, uma nova categoria de hotel. Localizado em Amsterdã, na Holanda, o empreendimento oferece uma casa/escritório híbrido para longas estadias, aliado aos típicos serviços hoteleiros. A partir de 117 euros por noite, o espaço foca exclusivamente em nômades, pessoas que viajam constantemente, mas que precisam da praticidade de trabalhar, morar, relaxar e conviver com outros humanos num só lugar.


No Brasil, a cena é um bocado diferente e, por enquanto, sem tanta interferência de administradoras. Ou seja, é mais roots. Pipocam em redes sociais como o Facebook anúncios do tipo: “galera, temos uma vaga aqui na casa, com internet, diarista, etc…”. Parte deles querem apenas dividir as contas com alguém legal e de confiança, mas outros são de comunidades intencionais urbanas, compostas por moradores com visões de mundo parecidas, engajados em dividir o que possuem, cuidar do local em que convivem e zelar pelo bem-estar uns dos outros. Quem quer embarcar nessa jornada encontra um lugar de hospitalidade e não apenas moradia ou espaço.


No bairro nobre do Pacaembu, em São Paulo, alguns antigos casarões já são ocupados por grupos que dividem o aluguel, a localização privilegiada e as mordomias, de maneira mais autônoma, sem a interferência de grandes empresas na administração de tudo. Durante um debate no Festival Path de 2017, a administradora e empreendedora social Ranyely Araújo explicou um pouco de sua experiência na Casa de Trocas, onde exercita diariamente o compartilhar e o viver em comunidade. As aulas de yoga que acontecem por lá, por exemplo, são abertas ao público por R$ 20,00, assim como diversos outros eventos e conversas. Um de seus moradores chegou a fazer um mini documentário para ilustrar o que é a moradia compartilhada e o convívio dentro da mesma residência.


Há outras e cada qual com suas regras. O facilitador e educador Pedro Araújo Mendes participou de vivências na As One Community (comunidade autossustentável onde vivem 180 pessoas), do Japão, e na ecovila Tamera(tida como a “primeira aldeia pela paz”), em Portugal, até se tornar integrante do coliving urbano Maracasa, no Rio de Janeiro. Ele conta ao Átomo que antes de tudo dividia sua própria casa e tinha a rotina tranquila, porém com muitos desafios nas relações. Foi durante uma participação na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que veio o insight sobre mudar o modo de viver nas cidades.


Olhando a terra como um sistema vivo, percebi que as cidades são grandes feridas na Terra. São os locais com maior degradação ambiental e social. O nível de consumo alto e insustentável, faz com que ocorra a degradação em outros locais. Assim começamos um projeto piloto. Depois tive a oportunidade de fazer os intercâmbios fora do país e experimentar a rotina de eco-comunidades urbanas, sem regras, chefes, propriedades, etc.  — Pedro Araújo Mendes, da Maracasa.


Fazendo um balanço entre as dores e as delícias de tais práticas, ele cita algumas vantagens, como “viver na prática o ideal de que somos todos um; enorme crescimento pessoal e humano; e uma vida mais simples e mais barata”, e desafios, “ aprender a distribuir poder, a compartilhar e pensar fora da caixa; não entrar em competições, sempre buscando soluções ganha-ganha; e entender que o coletivo não é antagônico ao individual. Ser 100% coletivo e individual ao mesmo tempo.”


Além das casas coletivas, está previsto em São Paulo a construção do primeiro edifício de coliving, um modelo semelhante ao WeLive. Desenvolvido pelo escritório de arquitetura Triptyque, reconhecido por seus projetos modernos, o prédio de 13 andares na Vila Madalena será erguido em madeira certificada e vai abrigar não só moradores, como também um coworking e um restaurante. A previsão é de que fique pronto até 2020.


Em Porto Alegre, a incorporadora Wikhaus estuda moradias colaborativas desde 2014 e está para lançar, enfim, o primeiro cohousing do estado, batizado de Cine Teatro. O imóvel tem studios de 30 a 78 m², equipamentos compartilhados, coworking e área de convivência integrados. Antes mesmo de seu lançamento, já tem 60% de ocupação.


Pedro finaliza a conversa dando dicas para quem quer começar a surfar nessa onda. “Pra se viver em um co-living, o primeiro passo e achar as pessoas que queiram viver juntas. Depois o local, de acordo com as vontades de cada um. Também é preciso ter clareza financeira, espaço para celebrações e convivência, evitar ao máximo regras e focar no social e princípios. Se as relações estão bem e são sustentáveis, o ambiente será sustentável”, argumentou.

Ampliando seus horizontes, até mesmo a terceira idade está criando seus caminhos dentro do coliving. Pessoas acima dos 65 anos já formam comunidades enormes ao redor do mundo, saindo da solidão e dividindo o mesmo teto com os amigos, porém bem longe da imagem melancólica que um asilo costuma passar. Para se ter uma ideia do quanto são vanguardistas, em Santos, litoral de SP, existe uma “república de velhinhos” desde 1995. Em São Paulo há condomínios da CDHU para a melhor idade, mas a escolha de moradores é por sorteio. O conceito evoluiu até que se juntassem os amigos mais chegados para viverem no mesmo endereço, como acontece na residência autogerida Convivir, em Cuenca, na Espanha.


Seguindo uma linha de raciocínio que relaciona tempo, espaço e costumes, é possível dizer que a cada estágio da vida já exista uma solução para não morar só. A república de estudantes dá lugar ao coliving; a família encontra seu próprio espaço e o divide quando quer no cohousing; e os idosos se acomodam junto a pessoas queridas em pequenos condomínios, que não diferem muito de ambos os conceitos citados.


Com o espírito de comunidade aflorado, as definições de “colega de quarto” foram atualizadas. Seja através de mega empresas ou de forma orgânica, o movimento está acontecendo. As pessoas estão procurando grupos para se conectarem e essa tendência vai tomar cada vez mais forma. Por enquanto, é um meio de preencher vazios e necessidades. Se a grama do vizinho vai continuar sempre mais verde, só o tempo vai dizer.

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