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Trabalhos artesanais e independentes estimulam a era de consumir menos e melhor


Por Brunella Nunes

Seguindo a premissa de que quantidade não é qualidade, a sociedade começa a sair das garras do consumo exacerbado para se prender aos valores do passado. O artesanato, ou a arte de fazer com as próprias mãos, sempre foi um dos grandes legados culturais brasileiros e parece ter despertado de um sono profundo nos últimos cinco anos. A boa notícia é que isso não é propriamente requentado, mas sim renovado. O mercado ganhou um estímulo a mais para resgatar o fôlego de outrora: uma geração engajada e interessada na pequena produção.

Designers, estilistas, artesãos, artistas, escritores, floristas e marceneiros se inspiram nos ensinamentos passados, mas com doses de criatividade recriam produtos, trabalham em cima de seus propósitos e resgatam o costume de comprar do pequeno produtor, seja nas feirinhas de rua, em lojas colaborativas ou até mesmo virtuais. Isso acontece até mesmo em São Paulo, a meca dos shoppings centers, que estão enfrentando desafios para se manter de pé. Um exemplo disso é o prejuízo de R$ 217 milhões que a operadora BRMalls — a maior do país — teve no segundo semestre de 2017, um índice que não era visto na empresa desde 2014. Segundo a Associação dos Lojistas de Shoppings (Alshop), os shoppings estão com ociosidade, especialmente os mais novos, com até 45% de seus espaços vazios. Faltam lojistas empreendendo, mas também pessoas comprando.


Mas afinal, o que aconteceu para que, numa era de avanços tecnológicos infinitos e atraentes, a gente desse alguns passos para trás na hora de consumir?


Um cansaço coletivo, talvez, com um empurrãozinho da economia que teima em fazer a população buscar por diversos meios de sobrevivência. Segundo o consultor para internacionalização de marcas brasileiras e professor de Design Thinking no IED (Instituto Europeu de Design), Evilásio Miranda, há muitos fatores que justificam o crescimento desse nicho. “Ressalto alguns deles, como a acessibilidade, já que a internet é um shopping center sem luvas ou aluguel; a crise de representatividade, que é um termo político, mas que se aplica à moda, ou seja, não me vejo representado nas marcas que estão aí(estilo, ética, preço), então crio minha própria marca; e crise econômica: a falta de emprego empurra a população para, entra outras coisas, o empreendedorismo”, destacou ao Panda.


Quando se fala em compras e consumo, é difícil não refletir sobre o duro tombo que o mundo da moda levou em tão pouco tempo. De repente, não dava mais para ser elitista, fechado e pautado nos exageros. Até mesmo as grifes consolidadas estão tendo, mesmo que de maneira mais lenta, de se reinventar para atender às demandas e corresponder com as expectativas. “O mundo mudou, as barreiras caíram, os mapas da moda também. Se antes existia um fluxo comercial e de informação estruturado, com desfile/showroom, depois revista/multimarca, aí então chegando no consumidor final, hoje isso se desfez, dos pequenos aos grandes. O consumidor virou protagonista, produtor, disseminador. Hoje é ridículo pensar num mercado elitista. Os que conservam essa mentalidade são cada vez menos relevantes”, apontou Evilásio.


É inegável que a grande fábrica de tendências da moda ainda funciona, mas há nuances, imprevisíveis até, que revelam um certo desconforto e descontentamento nessa relação entre pessoas e marcas. Numa época onde todos lutam para encontrar seu devido lugar no mundo, fica difícil reverenciar o que estilistas pautados pelo suposto luxo propõem em suas lojas e coleções.


Atualmente vivemos no momento onde há a maior diversidade de perfis convivendo no mercado de consumo, se utilizamos, por exemplo, um recorte geracional. Enquanto muitos negócios tentam ainda entender os millenials, a geração Z ganha uma voz cada vez mais relevante. Nossos pais e avós são usuários de redes sociais e compram online. Se damos um zoom out e, em vez de geração, pegamos causas/engajamento, enxergamos outros perfis. Se cruzamos tudo isso, observamos uma matriz quase infinita de possibilidades”, analisou Evilásio.


Ou seja, mesmo que na necessidade se abram oportunidades, a consolidação de um mercado de marcas e produtores independentes não se limita somente a assuntos econômicos. Idealizadoras da feira Jardim Secreto, que é uma das maiores de São Paulo, Claudia Kievel e Gladys Tchoport atribuem as mudanças ao perfil do consumidor e o esgotamento do modelo tradicional de negócios. “Desde 2013, quando nosso projeto nasceu, vimos nascer junto marcas e projetos feitos à mão por todos os lados. Naquela época ninguém falava de crise. O movimento nasceu pela falta de diversidade criativa por conta do direcionamento das grandes marcas, que fez criar-se uma estafa no consumidor.


E isso para tudo, produtos, experiências, conteúdo. Além da variedade criativa na produção manual e local, existe também o propósito, as pessoas nunca gostaram de comprar ou viver experiências onde alguém foi explorado. Foi por conta disso que o Consumo Consciente tomou forma e virou pauta, muito além de produtos, mas também como um estilo de vida.”

A principal veia dessa mudança é, então, comportamental. O jornalista James Holbrooks, em um texto para o Activist Post, analisou por que os millenialsnão vão aos shoppings e a resposta é muito simples: querem ter menos coisas. Ele também atribui a esse fator o crescimento do comércio online. Junto a essa linha de raciocínio, Evilásio apontou ainda outros elementos para a receita de sucesso das marcas em ascensão. “Em geral, o que vemos emergir ao olhar para marcas independentes de moda é a transparência, a sustentabilidade, a inclusão (com novas abordagens de gênero, minorias, estéticas que antes não tinham espaço), o usufruto em vez da posse (pense em troca, aluguel, empréstimo), enfim, um universo rico de inquietações contemporâneas gerais transformadas em produtos e modelos de negócio inovadores.”


Tais teorias se justificam com o que vemos nas novas prateleiras e eventos de rua. São produtos e peças originais, sofisticados, feitos com uma essência e autenticidade muito grande. Não são coisas feitas apenas para vender, mas para ter um significado imensamente maior na vida tanto de quem faz quanto de quem compra. O cliente leva consigo não só uma mercadoria, mas um item com maior valor agregado, único e feito com amor. Mais do que ter algo novo para chamar de seu, ele também integra uma rede que se sustenta com base nos laços que são feitos entre empreendedores, fomentadores culturais e seu público.

A experiência envolvente de estar numa feira como essas capta o olhar das pessoas de dentro para fora, de fora para dentro. Mais do que um lugar para gastar mediante diversos estímulos, este é um ponto de encontro e convivência. Em um dia de feira, você encontra tanto da nossa cultura em um só lugar, que só o passeio já vale. Costumamos observar a forma como o produto foi criado, a forma como o produtor resolveu desafios, sejam eles visuais ou de funcionalidade, a qualidade deste produto. E claro, a sua atração estética. É muito comum ver receitas repetidas de bons resultados, mas é bom lembrar que esse resultado deu certo por ser novo ao olhar, por refrescar esteticamente e por surpreender”, disseram as sócias do Jardim Secreto. De mãos vazias ou não, as pessoas saem de lá felizes, inspiradas e provavelmente aguardam a próxima edição cheia de novidades.


No percurso que envolve economia criativa, consumo consciente, sustentabilidade, slow shopping, ideologias e valores pessoais pautando as escolhas, podemos observar que pouco a pouco o ciclo se renova. Ao recuar e dar uma desacelerada nas ações e escolhas cotidianas, podemos aprender muito sobre o valioso momento que estamos agora, uma chance de recomeçar.


“Acreditamos que toda evolução precisa olhar para trás. E é preciso enxergar o todo para dar o próximo passo. Evoluir sem reflexão, sem conexão com o mundo onde vivemos, não faz o menor sentido. Com certeza a preocupação com como chegamos até aqui e como alteramos tanto o nosso redor faz o interesse pelo manual, pelo natural, sustentável e consciente se destacar. Com esse novo olhar, pesquisando sobre técnicas e expressões artísticas, muitos artesãos contemporâneos, designers e artistas conseguiram finalmente enxergar o valor da cultura artesanal no Brasil. O tamanho da riqueza de técnicas e obras brasileiras voltou a ser relevante”, opinaram Claudia e Gladys.


Além disso, é no trabalho manual em que muitas pessoas encontram seu ponto de equilíbrio, uma quase terapia mesmo, como Evilásio citou durante a entrevista. “Quando tudo (ou quase tudo) aponta para uma direção, cria-se um movimento oposto, uma contratendência. Se tudo está muito ágil e conectado, quero calma e isolamento, e o artesanato traz isso. Também podemos estar falando de uma reação ao fast fashion e seus males socioambientais.


Movimentos como o Fashion Revolution questionam ‘quem fez minhas roupas’, e o artesanato traz uma resposta. A alma do feito à mão também se opõe à massificação da moda como um todo.”


De fato, o Fashion Revolution é um meio que colabora para alertar o comprador. O movimento global liderado por marcas sustentáveis pressiona a indústria desde quando aconteceu uma tragédia em 24 de abril de 2013, em Dhaka, Bangladesh: 1.133 pessoas morreram e outras tantas ficaram feridas com o desabamento de um complexo têxtil, que tinha entre seus clientes a gigante rede britânica de fast fashion Primark. As catástrofes ambientais e sociais, seja pela moda ou qualquer outro nicho, começam a nos colocar num abismo onde a cada escolha feita, podemos empurrar tantas outras coisas penhasco abaixo. No Brasil, a iniciativa parafraseia Mahatma Gandhi para ilustrar seu significado: “Não há beleza no melhor de todos os tecidos se ele traz fome e infelicidade.”


Em 2017, aconteceu em terras tupiniquins a Eco Fashion Week, primeira semana de moda sustentável do Brasil. O evento contou com desfiles, showroom, palestras, oficinas, espaço de inovação e negócios em moda, comércio justo e ético. Já o Manifesto Compro De Quem Faz (CDQF), criado para incentivar a produção criativa e o consumo artesanal, espalha a mensagem por tópicos que resumem essa vertente: pessoal, poderoso, estilo e nacional.

Há uma infinidade de boas ideias sendo colocadas em prática para mostrar que a roupa que nós vestimos não é apenas um pedaço de tecido; aquele quadro na sua parede não é apenas uma moldura; o perfume que toca a sua pele não é só aroma; existe história por trás e não somente isso, mas pessoas que os fazem. Para estarem literalmente ligadas a este universo do qual pintam e bordam, Claudia, que é designer, e Gladys, que é estilista, criaram juntas a Âmago, uma marca de velas feitas com cera de soja.


A dupla vem de uma família em que os trabalhos manuais sempre estiveram presentes, especialmente na vida das mulheres. “O interesse pelo feito à mão nos fez ir atrás dos motivos pelos quais essa atividade é dita como feminina, e estamos desde então trabalhando nessa pesquisa, ao mesmo tempo que vivemos a experiência. Tudo que puder ser feito manualmente em nosso projeto, optamos por fazer! E além disso, nos colocamos como expositoras da Feira para também sentir o que os nossos colaboradores sentem participando, suas vantagens e desafios”, contaram.


Na jornada de quatro anos de história, elas colhem os frutos de uma boa curadoria aliada à entretenimento, com um festival de música independente se adequando à cada edição. Neste ano, abriram um espaço físico com auxílio de financiamento coletivo. Ou seja, quem acreditava no projeto, investiu e ajudou a crescer. “Ter um projeto independente não é simples, e nem sempre é divertido e realizador. Muitas pessoas têm dificuldade até hoje de entender como funciona nosso trabalho. Mas hoje temos um ponto fixo com uma loja colaborativa, o café Nano Cafés Especiais, e um espaço para cursos chamado Sala Casulo. O contato com tantas mentes criativas e inventivas nos alimenta e nos inspira a continuar.”


Por mais difícil que seja, nesse mundo tão cheio de estímulos, seja pela publicidade, pelas vitrines ou pelos “preços da China”, é necessário encontrar um equilíbrio entre necessidades e desejos. Já não cabe mais comprar para preencher vazios ou desfilar com coisas que não podemos pagar. O mundo girou. Seja para criar ou para comprar, os olhos precisam estar brilhando; a mente precisa estar borbulhando; o coração precisa estar pulsando em cada detalhe. As coisas boas levam tempo, mas elas chegam.